Covid-19: Renda e letalidade nos bairros do município do Rio de Janeiro

30/11/2020
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Possivelmente, a maior incógnita sobre a Covid-19 é o verdadeiro número de pessoas no mundo que contraíram o vírus. Sem esses dados, não se pode calcular uma taxa de letalidade precisa. A letalidade mede a severidade de uma doença e é definida como a proporção de mortes dentre aqueles doentes por uma causa específica em um certo período de tempo. A taxa de letalidade é calculada dividindo-se o número de óbitos pelo número de casos. Então, uma taxa de 0,1%, por exemplo, significa que a cada mil pessoas contagiadas, 1 pessoa vai a óbito.

Taxas altas podem indicar que existe uma grande subnotificação no registro de casos, sendo então reportados apenas os casos mais graves, ou que o sistema de saúde não esteja conseguindo atender a demanda da população. Diversos estados do país, desde o início do isolamento, reportaram esgotamento dos leitos disponíveis para tratamento dos infectados pela doença, tanto nos hospitais da rede pública quanto da rede privada. Em contrapartida, o fato de haver milhares de infectados assintomáticos ou com sintomas leves torna mais difícil identificar o real motivo desta taxa no Brasil, que atualmente está em aproximadamente 2,9%.

A figura abaixo apresenta a taxa de letalidade dos dez países com maior número absoluto de mortes por Covid-19, até o dia 28 de outubro de 2020.


Figura 1: Taxa de letalidade da Covid-19 dos dez países com maiores números absolutos de mortes (%).

taxa_paises Fonte dos dados: CNN health.


A partir do gráfico não é possível identificar se a doença afeta de forma mais grave os países menos desenvolvidos, mas é possível fazer uma análise dentro de cada país observando regiões, estados, cidades ou bairros com menores rendas per capita.

A Figura 2 mostra os dez estados com as maiores taxas de letalidade no Brasil, evidenciando a disparidade do Estado do Rio de Janeiro em relação aos demais, sendo então o Estado com maior taxa, ficando a frente até mesmo de São Paulo que possui o maior número de infectados e óbitos em números absolutos do país.


Figura 2: Dez estados do Brasil com maiores taxas de letalidade (%).

taxa_estados Fonte dos dados: Secretarias Estauais de Saúde.


A partir dos dados obtidos no Censo 2010, foi possível fazer uma breve análise do desenvolvimento da Covid-19 nos bairros da cidade do Rio de Janeiro em paralelo à renda per capita em cada bairro.

Os mapas e gráficos a seguir sugerem que existe uma relação entre as taxas de letalidade com a distribuição de renda na cidade, tornando possível identificar que as maiores taxas de letalidade se dão nas áreas mais pobres, sobretudo nas comunidades.

De início, na Figura 3, o mapa da taxa de letalidade por bairros mostra em azul mais escuro as maiores taxas, e em azul mais claro, as mais baixas, evidenciando a discrepância no número de óbitos à medida que se aproxima da Zona Sul da cidade. Os dados são referentes até o dia 28 de Outubro de 2020.

Figura 3: Taxa de letalidade (%) da Covid-19 por bairro no município do Rio de Janeiro.

Fonte dos dados: Prefeitura do Rio de Janeiro.
Nota: NA corresponde aos bairros que não notificaram casos de Covid-19.

O próximo mapa, na Figura 4, mostra a distribuição do rendimento domiciliar per capita em salários mínimos por bairro no município do Rio de Janeiro segundo os dados do Censo de 2010. É possível observar as rendas mais altas com as cores em verde mais escuro, enquanto as mais claras mostram os bairros com rendas mais baixas.

Considera-se como renda domiciliar per capita a soma dos rendimentos mensais dos moradores do domicílio, em reais, dividida pelo número de seus moradores. Para que obtenha-se tais números em salários mínimos, é preciso dividir a renda domiciliar per capita pelo salário mínimo do ano de referência (2010), que no caso, corresponde ao valor de R$ 510,00.

Figura 4: Renda domiciliar per capita em salários mínimos por bairro do município do Rio de Janeiro.

Fonte dos dados: Instituto Pereira Passos e Prefeitura do Rio de Janeiro.
Nota: Dados referentes ao Censo 2010, em que o salário mínimo correspondia ao valor de R$510,00. NA corresponde aos bairros para os quais não há informação.

Fazendo um paralelo entre ambos os mapas (Figuras 3 e 4), é possível estabelecer uma ligação entre os bairros de menores rendas e os bairros de maiores taxas de letalidade.

Os box-plots da Figura 5 apresentam as distribuições das taxas de letalidade, respectivamente, para bairros com menores rendas e bairros com maiores rendas, em que observa-se uma diferença evidente. Os dez bairros com as menores rendas obtiveram uma taxa mediana de aproximadamente 13,7%, comparados aos dez bairros com as maiores rendas, que obtiveram taxa de letalidade mediana de aproximadamente 5,0%. A informação sobre as rendas por bairros foram coletadas do Instituto Pereira Passos e são referentes ao Censo de 2010.

Figura 5: Gráfico box-plot das taxas de letalidade (%) dos dez bairros com as menores rendas e dos dez bairros com as maiores rendas.

Fonte dos dados: Instituto Pereira Passos e Prefeitura do Rio de Janeiro.

O gráfico de dispersão, apresentado na Figura 6, retrata justamente esta associação entre renda e taxa de letalidade entre 158 bairros da cidade do Rio de Janeiro, onde é possível observar uma relação decrescente, aparentemente exponencial, em que à medida que a renda aumenta a taxa de letalidade diminui.

Figura 6: Gráfico de dispersão entre taxa de latalidade (%) e renda dos bairros do município do Rio de Janeiro.

Fonte dos dados: Instituto Pereira Passos e Prefeitura do Rio de Janeiro.

É importante ressaltar que há grandes indícios de que os casos nas zonas de menor renda sejam subnotificados, haja vista a baixa quantidade de testes realizados, sendo assim, grande parte da população de baixa renda fica sem o diagnóstico positivo da doença, logo, não entram nas estatísticas, sendo notificados apenas os casos mais graves. Há no entanto, painéis de algumas organizações não governamentais que abordam e dão visibilidade justamente a este aspecto, divulgando estimativas mais próximas dos valores reais dos números de infectados e de óbitos em inúmeras comunidades do Estado do Rio de Janeiro.


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